Enquadramento

Ao longo dos seus 100 anos de história, o complexo mental dos fenómenos de Fátima instalou-se e floresceu na sociedade portuguesa, sem discussão nem alternativas, nos estreitos limites dicotómicos, maniqueístas, da aceitação ou da recusa. Gradualmente tem vindo a registar-se um crescendo de curiosidade e interesse por parte de muitos investigadores e cientistas, das ciências físicas às humanas e sociais, tendendo à reflexão ponderada em torno de questões, tanto quanto possível, objetivas e decorrentes dos episódios ocorridos desde 1917.

De facto, o acréscimo de conhecimentos científicos, com destaque para a dimensão cognitiva-subjetiva das experiências “extraordinárias” autoriza novas avaliações de territórios antes vedados à indagação e reflexão por carência de instrumentos adequados. Entretanto, algo se avançou em áreas disciplinares que não constavam do vocabulário científico de 1917, da astronomia à psicologia, da sociologia às neurociências, entre outras, fundamentais para se perceber melhor os mecanismos dos fenómenos “aparicionais”, religiosos e/ou profanos, as suas modalidades e modos de expressão/compreensão. 

Assim, os objetivos do Congresso “(Re)Visões de Fátima” visam proceder a um primeiro balanço secular, multidisciplinar e multiconfessional, de fenómeno de inegável impacto social e cultural; suscitar e integrar novas evidências e interpretações comparativas das chamadas “aparições marianas” de 1917 dentro e fora do imaginário do “maravilhoso cristão”; perceber e interpretar o percurso histórico justificativo da integração teológica do fenómeno “mariano” no “corpus” dogmático do catolicismo romano; discutir a génese e evolução dos processos de “rumor lendário” e de “mito em progresso” comparando-os com a construção da narrativa fatimista à época (1917); ultrapassar os limites redutores da crença singela e da piedade populares a que a problemática de Fátima tem estado sujeita e recolocar as suas aporias e dimensões paradoxais perante a interpelação científica e os seus critérios de análise contemporâneos.